19.male.brazilian.

Hoje, você já não participa mais dos meus dias, não compartilha o tédio nem pede companhia na chuva. Hoje, você está bem, você subiu, você viveu (continua a viver), mas eu continuo parado, atrasado, naquele passado. Continuo te olhando nas mesmas manhãs com o mesmo barulho de gente animada fofocando ao fundo. É tão engraçado -mesmo que seja triste- esse meu desejo intenso de te querer, enquanto você nem nota minha falta, nem, ao menos, lembra que não estou ali, contigo. Eu não sei aonde exatamente eu errei, só sei que errei. Deve ter sido na velocidade, eu me apaixonei muito rápido por você e você não conseguiu alcançar os passos do meu coração.

Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaixão, de tudo o que é ternura e amor. Contudo, nenhuma alma há tão solitária como a minha — solitária, note-se, não mercê de circunstâncias exteriores, mas sim de circunstâncias interiores. O que quero dizer é: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau carácter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de egoísmo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena acção interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena acção externa, a sua manifestação. Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrinçar, os elementos que constituem o meu carácter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada à minha curiosidade por mim próprio e pelo meu carácter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.


Uma Alma Amante e Eterna - Fernando Pessoa.

Acordei antes do sol, pronto para o melhor, pronto pra você.
Apressurado me aprontei, seria um dia lindo mesmo com as nuvens chorosas.
Em uma praça amanhecida com cheiro de amor bêbado sentei, aguardei e ansiei.
Mas meu fim foi patético, em meio a grãos de café, afundei.
Nada de mocaccino juntos com pães de queijo divididos, nada de olho no olho ou bafo no bafo. Nada de nada, nada de tudo.
Em vergonha imensa voltei, cabisbaixo, junto ao desprezo e a ácaros acróbatas, que defronte, trabalhavam para não me esquecer da minha mais nova derrota.
Uma manhã com muito “ei”, mas nenhum de “mudei” ou de “consegui”. Mesmo que não haja “ei” em “consegui”, foi, naquela manhã, o que mais esperei.

Eu comecei inocentemente escrevendo páginas de um conto de fadas, mas imperceptivelmente, deparei-me com um livro triste, escrito com meu sangue escuro e reforçado com minhas lágrimas sujas, um livro tenebroso.

A floresta com árvores verdes, céu azul e animais bondosos e falantes se transformou em um enorme campo desmatado, com céu cinza pelas cinzas que voam das árvores incendiadas.

E da mesma chama, sofre o meu coração, que está sendo queimado interruptamente por este sentimento “auto cultivável”,  que me devasta há madrugadas com o desejo de um principiante.

Eu te tornei meu sem pedir autorização, e agora me dói ter a verdade nua e crua diante dos meus olhos, zombando do meu coração como uma criança mimada.

Eu sei que o ingênuo na história fui eu, mas nunca poderia imaginar que aquele pequeno produto que comprei anos atrás teria um preço tão alto, e que suas parcelas seriam assim, tão caras, tão longas, tão dolorosas.

Mamihlapinatapei : Palavra do yaga (língua do povo indígena Yagan do sul da Argentina) que quer dizer aproximadamente: “um olhar significativo e sem palavras entre duas pessoas que desejam iniciar algo, mas que estão ambas relutantes em iniciá-lo”.

Mamihlapinatapei : Palavra do yaga (língua do povo indígena Yagan do sul da Argentina) que quer dizer aproximadamente: “um olhar significativo e sem palavras entre duas pessoas que desejam iniciar algo, mas que estão ambas relutantes em iniciá-lo”.

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